Leite Derramado, Chico Buarque


10/04/2016
Aline Nascimento


Contracapa: Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. A fala desarticulada do ancião cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não ditos, de modo que o leitor pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Tudo, neste texto, é conciso e preciso; como num quebra-cabeça bem concebido, nenhum elemento é supérfluo. Percorre todo o livro a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher. Os múltiplos traços de Matilde, seu "olhar em pingue-pongue", suas corridas a cavalo ou na praia, suas danças, seus vestidos espalhafatosos, ao mesmo tempo que determinam a paixão do marido e impregnam indelevelmente sua lembrança, ocasionam a infelicidade de ambos. Embora vista de forma indireta e em breves flashes Matilde se torna, também para o leitor, inesquecível. Outras figuras, fixadas a partir de mínimos traços, circulam pela memória do protagonista: o arrogante engenheiro francês Dubosc; a mãe do narrador, que, de tão reprimida e repressora, "toca" piano sem emitir nenhum som; a namorada do garotão com seus piercings e gírias. É espantoso como tantas personagens ganham vida neste breve romance. Leite derramado é obra de um escritor em plena posse de seu talento e de sua linguagem.
Dizem que desgraça atrai desgraça, e é bom que assim seja, os baques me seriam muito dolorosos se eu já não estivesse caído. 
E qualquer coisa que eu me recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida! 
Muitas vez de fato já invoquei a morte, mas no momento mesmo em que a vejo de perto, confio em que ela mantenha suspensa a sia foice, enquanto eu não der por encerrado o relato da minha existência.
Acima já contamos um pouco sobre a estória deste livro, Eulálio Assumpção está com seus 100 anos, sobre o leito de um hospital ele faz relatos sobre sua vida e sua família durante o século XIX e XX. O texto é um monólogo, ou seja o Sr. Eulálio passa a relatar suas experiências para sua filha e os enfermeiros.

A narrativa não tem uma ordem cronológica, acontece vários devaneios; a mesma estória e contada duas, três vezes; quando estamos conhecendo um personagem ou um fato o Sr. Eulálio já pula para outro fato; ele mesmo nos conta que aquilo que ele acabou de falar não é verdade ou não aconteceu naquela época; e que tudo isso é devido a sua idade. O Chico Buarque aproveitou de uma forma esplendida essa "brecha".

Mas, se com a idade, a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
O texto aborda política e cultura, como uma família tradicional deveria comportar-se perante a sociedade nos meados daquele século; ele relata a vida de sua filha, seu neto, e seu bisneto.
Um dos principais focos e os principais devaneios na estória é sobre o romance com sua criada Matilde; Chico Buarque deixa em aberto, mas nas entrelinhas podemos entender que o relacionamento com Matilde nunca foi bem resolvido.

Fui  na livraria e estava atrás de algo que me tirasse da zona de conforto de leituras, me deparei com este livro e pensei que seria um ótimo livro! E bingo... é uma leitura diferente das que estou acostumada, nas primeiras páginas tive um pouco de dificuldade com a linha de raciocínio do autor, porém com mais algumas páginas lidas eu adaptei-me e a leitura fluiu, com certeza é um livro que recomendo!

Obsevarções sobre o autor/livro:

Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou várias peças e uma novela; na sua lista de livros publicados estão Fazenda Modelo (1974), Chapeuzinho Amarelo (1979), A bordo do Rui Barbosa (1981), Estorvo (1991), Benjamin (1995), Budapeste (2003) e Leite derramado publicado no dia 28 de março de 2009 já foi traduzido para o alemão, espanhol, francês, inglês e italiano, o livro já levou o prêmio jabuti de melhor livro de ficção do ano de 2010, possui 200 páginas e foi publicado aqui no Brasil pela editora Companhia da Letras.

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4 comentários:

  1. Olá, Aline! Tudo bem?
    Sei bem como é essa busca por algo diferente. Ultimamente venho buscando por isso também, mas ao mesmo tempo fico com medo de iniciar leituras com temáticas novas, não me pergunte o motivo. Sou um pouco esquisito, eu sei.
    Gostei do seu ponto sobre a obra. Me pareceu um livro diferente, narrado de uma forma um pouco confusa, porém gostosa de ser lida. Enfim, anotei a dica para os meus próximos livros nacionais para ler.

    Uma ótima semana. Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Oi Renato tudo bem? Sim, no começo também tive um pouco de dificuldade com a forma confusa, mas é só passar algumas páginas que tudo começa ganhar sentido, anota sim temos que incentivar nossa literatura nacional. Beijos

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  2. Oi Aline!
    Não conhecia o livro, mas é mesmo bem diferente dos livros que costumo ler.
    Gostei da dica, gostaria de arriscar uma leitura diferente assim.

    Obs: Tem sorteio novo no blog :)
    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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    1. Oi Sora vale a pena, também achei uma leitura diferente, mas valeu a pena principalmente por ser uma livro nacional. Beijos

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